O Espelho Embaçado

O fenômeno de duplicação em Wuthering Heights

 

Kelly Lima

Junho de 2003

Porque eu sou a primeira e a última.

Sou a preferida e a odiada.

Sou a prostituta e a santa[1]

 

 

O indivíduo romântico é marcadamente ambivalente, marcando tanto em seus autores quanto em seus heróis, vários reflexos aparentemente paradoxais, como num espelho quebrado que refletisse não apenas fragmentos da face que o observa, mas também apresentasse em seus cacos a imagem incompleta do ambiente, com seus detalhes mais sutis amplificados e um todo deformado para se adaptar ao novo meio expressivo.

Wuthering Heights, a grande obra de Emily Brontë, mesmo tendo sido escrita no limiar final do romantismo inglês, não apenas confirma essa característica na literatura mas também se apresenta como um interessante exemplo de duplicação, espelhamento e multiplicação quase caótica de idéias, personagens e ambientes.

O título faz referência a uma das grandes propriedades presentes na obra, lar da família Earnshaw, que é devidamente contrastada com Thrushcross Grange, onde habitam os Linton. Enquanto Heights é apresentada de modo áspero, varrida por ventos impiedosos, e mesmo rústica na sua simplicidade funcional, Grange é descrita como um pequeno paraíso aristocrático, ‘carpeted with crimson, and crimson-covered chairs and tables, and a pure white ceiling bordered by gold, a shower of glass-drops hanging in silver chains from the centre, and shimmering with little soft tapers[2], refletindo seus próprios habitantes: passionais e violentos, os Earnshaw se opõem à civilidade e fraqueza dos Linton.

Em meio a esse contraste maior entre famílias tradicionais, Heathcliff, um garoto recolhido pelo Sr. Earnshaw em uma de suas viagens de negócios, surge para se contrapor às outras crianças, o mimado Hindley Earnshaw, os débeis Edgar e Isabelle Linton, e principalmente, para complementar Catherine Earnshaw. Enquanto os outros espelhamentos contidos na obra distorcem e invertem as imagens, criando comparações por oposição, Catherine e Heathcliff se complementam, como um espelho perfeito. Ou quase.

Ambos compartilham uma rebeldia e crueldade infantis durante toda a obra, como se tal relacionamento os impedisse de um amadurecimento maior. Mesmo antes da famosa exclamação de ‘I am Heathcliff’, de Catherine, o leitor já havia apreendido essa identidade compartilhada. Quando Nely afirma ‘It was one of their chief amusements to run away to the moors... they forgot everything the minute they were together[3], a imagem de duas crianças quase selvagens, numa união íntima entre si e com o clima tempestuoso da região, é indelevelmente ligada à dupla.

Porém, enquanto as comparações entre Heathcliff e Edgar Linton geram listas de oposição (violento/calmo, dominador/submisso, selvagem/civilizado), o confronto de Catherine e Isabelle Linton, seu mais óbvio par opositor, resulta num espelhamento parcial. Catherine se diferencia de Isabelle por sua vivacidade, assim como Heathcliff o faz com Edgar, entretanto, como é dela o grande papel bipartido da obra, a heroína acumula tanto características de rebeldia passional quanto a de uma dama socialmente desejável, executando o papel civilizado tão bem quanto Isabelle.

Essa multiplicidade de Catherine é insinuada logo no princípio da narração, quando Lockwood se aloja no quarto que outrora pertencera à garota, numa noite tempestuosa em Wuthering Heights, e lê, gravado nas paredes em rabiscos infantis uma enorme repetição de três nomes: Catherine Earnshaw, Catherine Heathcliff e Catherine Linton.

Catherine, acompanhada de Heathcliff, reforçava suas características febris (já presentes antes de seu encontro, segundo testemunho de Nely, uma versão amplificada da ‘Catherine Earnshaw’ primordial) e na presença dos Linton, se tornava uma moça vivaz, porém dócil. ‘Catherine Heathcliff’ representaria o desejo  inconseqüente de permanecer numa infância prolongada e livre, enquanto ‘Catherine Linton’ poderia indicar o desenvolvimento de uma personalidade dissociada da rebeldia e exclusão social que era compartilhada com Heathcliff, dando margem ao preenchimento do papel feminino socialmente aceito.

Como a Rosamond de Swinburne,

 

Sim, eu sou a mulher de todos os contos. A face que sempre se colhe na face da história: eu Helena, tendo Páris pelos lábios, golpeei Heitor na cabeça; eu Créssida, beijei a boca dos homens de tal maneira que eles adoeceram ou enlouqueceram, ferindo-lhes no cérebro; eu Genebra, usei meus olhos preciosos de rainha e meus delicados cabelos de ouro suave para envolvê-los, e a minha boca melada dei a Lancelote...[4],

 

Catherine, múltipla e confusa, usa seu poder para confundir também os personagens ao seu redor. Nelly, a narradora moralista, que não poupa condenações às ações da heroína, também se desdobra em elogios à sua natureza agradável; Linton, dócil e impressionável, mesmo após vê-la maltratar fisicamente a criada, não consegue se condená-la e dissolve rapidamente sua repulsa; e  mesmo Heathcliff, o grande personagem dominador, endurecido pelo tratamento de excluído e rejeitado, é envolvido febrilmente pelas mudanças de humor de Cathy.

Se o clímax da obra se encontrar no monólogo que provoca a fuga de Heathcliff, podemos marcar nele, pontualmente, a capacidade de Catherine aceitar sua natureza não apenas dupla, mas paradoxal. Ela se exprime de tal modo que suas afirmações parecem óbvias e naturais em sua mente, e não consegue entender a atitude atônita de Nely ao ouvi-las. A heroína assegura a possibilidade de amar Linton e Heathcliff, e que mesmo seu casamento com o representante da cultura e civilidade não seria capaz de mudar seu relacionamento com Heathcliff, todo instinto e impulsividade, simbolizando sua própria ambivalência.

O desastre que resulta dessas crenças de Catherine, como a amplificação do mal em Heathcliff e sua própria degeneração nervosa, e que culmina com sua morte precoce e febril, traduz a infeliz constatação de que mesmo um espelho embaçado, que mostre a imagem invertida, tem utilidade, mas um espelho quebrado, que reflita num mesmo quadro figuras opositoras está condenado à destruição; ou seja, no limite entre o romantismo e o realismo, Wuthering Heights utiliza a ideologia de liberdade e ambivalência dos românticos para provar que, apesar da questão da identidade individual ter sido o grande tema da geração, a identidade social continua sufocando o que lhe é estranho.

Não é a toa que o único casal que tem um ‘final feliz’ é o de Hareton e da jovem Cathy, que evoluem de um estágio infantilizado de rudeza e fantasia para os papéis clássicos de masculino e feminino.

A Heathcliff e Catherine resta compartilhar um sono inquieto, tendo de carregar mesmo através da morte a companhia incômoda de Linton para recordar quão inadequado pode ser a ambigüidade em face à sociedade. Apesar de ser pertinente a consideração de que um sono calmo seria incompatível com alguém que diz ‘If I were in heaven, I should be extremely miserable’ e que talvez a inquietude compartilhada por almas feitas do mesmo material não seja exatamente um castigo.

 




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[1] Eco, Umberto. O pêndulo de Foucault. Milão, 1988.

[2] Brontë, Emily. Wuthering Heights. Oxford, 1995. Cap. VI

[3] Brontë, Emily. Wuthering Heights. Oxford, 1995. Cap. V

[4] Praz, Mário. A carne, o diabo e a morte na literatura romântica. Unicamp, 1996.. Cap. 4,  A bela dama sem misericórdia.