Ofélia Traduzida: Arquétipo da Donzela Indefesa
Kelly Lima
kelly [arroba] samila.com.br
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Copyleft. Esse texto pode ser utilizado para fins não-comerciais desde que a fonte seja citada, e a autora, avisada.
“Em seguida, Ofélia, deixe-me comer o teu coração
que
chora as minhas lágrimas”[1]
Hamlet-Máquina
Desde
sua origem, a tradução vem esculpindo histórias e personagens no momento de
seu transporte de uma língua à outra. Traduções, bem ou mal
feitas, carregam no corpo do texto a interpretação do tradutor, que a cada
escolha realizada acaba por remodelar a construção original do autor.
“Translation is, of course, a rewriting of an
original text. All rewritings, whatever their intention, reflect a certain
ideology and a poetics and as such manipulate literature to function in a given
society in a given way.”[2]
Essa
impossibilidade da invisibilidade do tradutor permite que, através da comparação
entre várias traduções de uma mesma obra, possamos entrever entre as
palavras, marcas ideológicas e culturais. E é em busca dessas marcas que
comparei três traduções populares de ‘Hamlet’: para descobrir o que cada
versão faz com a personagem ‘Ofélia’, como cada tradutor, aqui atuando num
papel de leitor-modelo, interpreta as linhas da filha de Polônio.
As
traduções escolhidas foram a versão de 1980, de Péricles Eugênio da Cunha,
a coletânea de tragédias editada recentemente pela editora Ediouro,
traduzida por Carlos Alberto Nunes e a tradução de Millor Fernandes, em
sua coleção de obras teatrais. Péricles Eugênio da Cunha é considerado um
dos grandes tradutores do Brasil, e por vezes, são as linhas da sua tradução
que aparecem quando alguém cita ‘Hamlet’, além de ter sua edição
recheada de notas (quase metade do volume se dedica a elas), já a coleção
‘bolso’ da Ediouro e a de Millor, têm uma proposta supostamente mais
popular, com a linguagem menos rebuscada e a ausência de notas.
Minha
intenção inicial era observar todas as interações de Ofélia na peça, mas
devido ao fator tempo, tive de realizar um recorte e escolher apenas uma cena de
maior relevância, no caso, a escolhida para a comparação é o confronto entre
Hamlet e Ofélia, a primeira cena do terceiro ato.
Aceitando
que havia uma certa intimidade entre a dupla, devido ao aparecimento anterior da
carta de Hamlet e levando em conta o teor dos diálogos de Ofélia com seu irmão
e seu pai, possivelmente a cena em que Ofélia estaria mais natural seria a de
sua interação com Hamlet. Porém, nas duas cenas em que há diálogo entre os
personagens (o já citado confronto, e a platéia da peça dentro da peça),
eles possuem público.
Primeiramente,
seu encontro é observado pelo rei e por Polônio, que se escondem atrás das
tapeçarias. Conseguiria Ofélia se mostrar natural, sabendo que o encontro é,
afinal de contas, uma armadilha? Em algum momento da peça, vemos Ofélia como
ela realmente é, se ela permanece sob o olhar controlador do pai?
Segundo
Bernard Lott, em uma edição comentada de Hamlet:
“Ofélia has hardly more will of her own that the
Queen has. As Hamlet dominates the play, so he overshadows nearly all the
characters in it, and especially the woman he professes to love. She has been
brought up in complete submission to her father, and is still ready to obey him
blindly. Her particular kind of devotion is transferred to her lover.
She shows a submission to these men which is hardly
impressive, but since the play is about the struggles of Hamlet within himself,
a more forceful type of loved-one would be a distraction.”[3]
Já em sua primeira aparição, Ofélia promete seguir os
conselhos do irmão e tomar cuidado com a afeição de Hamlet. Logo em seguida,
ela aceita as ordens do pai, que lhe ordena que evite a companhia do príncipe,
e rejeite suas cartas. Ofélia consegue, em algum ponto da peça, provar ser
algo mais do que uma filha submissa? Ela se mostra realmente submissa a Hamlet
também?
Antes mesmo de suas grandiosas cenas de loucura, em que
finalmente estaria aparecendo ‘a more forceful type of loved-one’ , e
ela estaria se mostrando já desligada das regras patriarcais, Ofélia não
parece tão submissa, sob um olhar mais atento.
Primeiramente, antes do início da peça, ela já estava
conduzindo alguma espécie de relacionamento com o príncipe, sem que seu pai
soubesse. E esse relacionamento era recheado de cartas e presentes, que ela
tenta devolver a Hamlet, em seu encontro forjado, e não apenas cartas, pois em
seu dramático solilóquio, Ofélia fala da doçura de ‘musical vows’,
fazendo com que tenhamos a impressão que vários encontros apaixonados tiveram
lugar pelos corredores de Elsinore.
Mesmo enquanto ela tenta manter a formalidade em seu
encontro espionado por seu próprio pai e pelo rei, há deslizes no afastamento
da figura do príncipe, como o irritado ‘You know right
well
you did’,
quando da negação da doação dos presentes ou o carinhoso e desesperado ‘Help
him, you sweet heavens’ diante do discurso ‘enlouquecido’ de Hamlet.
Obviamente, se trata de uma personagem divida entre a lealdade devida ao pai (já
que não ouvimos falar de uma mãe durante a peça toda) e do desejo de se
entregar ao amor de um príncipe que era ‘glass of fashion and the mould of
form’. Sua confusão é palpável nas tentativas pouco entusiásticas de
devolução dos presentes (possivelmente forçada pelo pai) e em sua resposta
mentirosa ao príncipe, quando indagada da localização do pai, ‘At home,
my lord’.
Baseada em diversas interpretações críticas da
personagem, creio que não se trata de um personagem unidimensional, sem
profundidade. Ofélia se revela em sua loucura, e sua verdade também aparece
permeando seu discurso pela peça toda. Afinal, deveria existir algum motivo
para atrair o amor um príncipe intelectual (‘never doubt I love’,
ele pede), e mesmo a aceitação da rainha, que em seu enterro afirma ‘I
hoped thou shouldst have been my Hamlet’s wife’.
“A
linguagem obscena de Ofélia durante a cena da loucura, assim como o ataque
verbal de Hamlet durante a cena do convento, seriam indícios de que ela não
era uma jovem ingênua”[4]
O amor de Hamlet, que não podia ser igualado nem unindo o
amor de quarenta mil irmãos era real? Sabia ele que estavam sendo observados
durante o encontro, e sua pergunta era apenas um teste da fidelidade de Ofélia?
Pela reação violenta do príncipe, cheia de frases amargas e entrecortadas,
podemos acreditar que a traição de Ofélia foi a queda da última barreira
para seu mergulho na desconfiança total e o ápice da loucura fingida, assim
como ser amada, testada, e abandonada por Hamlet foi o primeiro passo na loucura
real de Ofélia. Já tendo se separado do irmão, a repulsa do amante e a morte
do pai cortaram as últimas ligações da garota com a sociedade. Não havia
mais porque guardar seus pensamentos só para si, afinal, ela estava sozinha e
todos que ele amava estavam ‘dead and gone’.
Quando as baladas de Ofélia choram o amado que está ‘dead
and gone’, ficamos na dúvida entre seu amor filial por Polônio (‘His
beard as white as snow’) ou do amor sensual por Hamlet (‘And will
a’ not come again? / No, no, he is dead./ Go to thy death-bed, / He never will
come agai.’), mas em todo caso, percebemos que o dela é,
“(...) o último tipo de loucura: a da paixão desesperada. O amor decepcionado em seu excesso, sobretudo o amor enganado pela fatalidade da morte, não tem outra saída a não ser a demência. Enquanto tinha um objeto, o amor louco era mais amor que loucura; abandonado a si mesmo, persegue a si próprio no vazio do delírio. (...)
Se
leva à morte, trata-se de uma morte onde aqueles que se amam não serão nunca
mais separados. É a última canção de Ofélia.”[5]
Assim, considerando Ofélia uma personagem torcida entre o
amor e a lealdade, possuidora de uma submissão e de um desejo contrastantes que
a levariam à loucura, podemos notar o apagamento ou o reforço de suas características
através das diferentes traduções selecionadas. E antecipando o resultado
dessa análise ligeira, o encontrado foi o apagamento das ironias envolvendo Ofélia,
de modo a encaixá-la num modelo romântico, de donzela virtuosa e inocente.
Minha análise começa na primeira fala de Ofélia, após
Hamlet perceber sua presença no salão em que estão sendo observados,
secretamente, por Cláudio e Polônio. Ele faz uma saudação carinhosa,
chamando-a de ninfa, mas a garota retribui de maneira mais fria e reservada,
chamando-o de ‘my lord’, e em seguida, de ‘your honour’. Todo o diálogo
vaga entre formalidade e informalidade, tanto pelos tratamentos dirigidos aos
interlocutores como pelo duplo sentido de grande parte do texto.
A primeira linha realmente significativa para a caracterização
da personagem é a resposta irritada da garota após a negação, por parte de
Hamlet, da origem dos presentes. Quando o príncipe nega ter dado coisa alguma
à Ofélia, as interpretações mais aceitas são a de que ele já percebeu que
estão sendo observados, ou ele simplesmente não a ama mais,
ou o ‘Hamlet’ que dera os presentes a ela já não é mais o mesmo
‘Hamlet’ a quem ela quer devolver os presentes. Em todo caso, a garota
parece ofendida e responde,
“My honoured lord, you
know right well you did”
E tenta forçar a reiteração dos presentes, argumentando
que eles perderam o valor devido à crueldade do doador.
A devolução não é bem sucedida, pois Hamlet ri e muda
rapidamente de assunto, como se estivesse realmente louco ou simplesmente
percebido o comportamento inusitado da garota. Ele pergunta “Are you honest?”,
que é geralmente interpretado como uma alusão à virgindade da garota, de modo
velado, e que aparece convenientemente traduzido como “És casta?”, na tradução
de Ramos, que
ainda acrescenta numa nota o significado de ‘honest’ como ‘chaste’
ou ‘virgin’.
Vale também notar que a tradução de Ramos vem cheia de
marcas para atuação, que tentam controlar a interpretação do leitor, pois
acompanhando o ‘És casta’, aparece a marca ‘(Lembrando-se da trama)’,
que faz com que o leitor aceite que Hamlet só falou aquilo que falou porque
tinha de fingir que era louco, e não porque o discurso tivesse qualquer relação
com Ofélia. Os termos mais adequados seriam certamente ‘casta’ ou
‘pura’, pois dão a mesma ambigüidade de ‘honest’. Millor e Nunes se atêm
ao ‘honesta’, que faz as falas seguintes de Hamlet parecerem um discurso
filosófico sobre a virtude, com apenas leves sugestões de castidade, ao invés
do sentido duplo que permeia toda a interação entre os personagens.
Outra linha interessante é a da resposta de Ofélia após
Hamlet afirmar, ‘I did love you once’, e a garota responde, ‘Indeed,
my lord, you made me believe so’. Nunes traduz o trecho como “Cheguei
a amar-te” e “Em verdade, o príncipe me fez acreditar nisso”,
o que traz um tom ligeiramente cínico ao ‘cheguei’ do príncipe, ligando-o
com o discurso sobre virtude e alcoviteria ao invés de tornar a declaração
aparentemente ‘desligada’ do contexto. A resposta de Ofélia soa
extremamente submissa e formal, inclusive tratando o interlocutor na terceira
pessoa.
Millor, por sua vez, traduz como “Eu te amei, um dia” e
“Realmente, meu senhor, cheguei a acreditar”, que soa mais pessoal e
sincero, adicionando, na resposta seguinte de Hamlet, a familiaridade do “Pois
não devia”. Ramos mantém o distanciamento pelo uso do tratamento formal, em
que Hamlet diz “Eu já vos amei” e ouve
“Realmente, senhor, vós me fizestes acreditar que sim.”
Em seguida, Hamlet se contradiz, com o curto ‘I loved you
not’, que causa a resposta ‘I was the more deceived’, por parte de Ofélia.
‘Deceived’ não encontra um correspondente de mesma função no português,
apesar de ‘decepção’ e ‘desilusão’ desempenharem um bom papel no caso
de substantivação do verbo. Nunes traduz o trecho como “Nunca te amei”
e “Tanto maior é minha decepção”, que, de certo modo, desvincula o
‘deceived’ que parecia tão intimamente ligado. Não se trata mais da garota
ser a mais ‘desiludida e decepcionada’, mas sim, da sua decepção ser
maior. Millor traduz “Eu não te amei” e “Tanto maior foi meu engano”,
que diminui bastante a imagem pessoal e magoada do trecho. Enquanto Ramos usa
“Eu nunca vos amei” e “Tanto maior foi meu engano”, o que mistura as
duas outras traduções e consegue, pela força do ‘nunca’, contrastar
intimidade com a formalidade do ‘vos’.
A partir de então,
o príncipe começa a argumentar que o melhor destino para Ofélia seria ‘a
nunnery’, que tem o duplo sentido de ‘convento’ ou ‘bordel’ na gíria
elisabetana. Tanto Ramos quanto Nunes se atêm ao tradicional ‘convento’, em
todas as menções de ‘nunnery’ presentes na cena, e Ramos chega a indicar
que Hamlet diz sua fala ‘Apontando par ao genuflexório’. Millor, por
outro lado, começa usando ‘convento’, mas após a ‘traição de Ofélia’
(sua afirmação de que o pai estava em casa quando Hamlet já percebera que
estavam sendo observados), quando Hamlet se torna mais violento e agitado, o
termo aparece como ‘conventilho, um bordel’, que recupera a intenção
implícita do príncipe de chamar Ofélia de prostituta.
Assim que Hamlet realiza seu ‘teste’ da fidelidade de Ofélia,
e a garota é ‘reprovada’, todos os vícios e defeitos que ele antes atribuía
para as mulheres em geral são atirados na garota. Ele reclama do seu modo de
andar, de falar, das maquiagens com a qual ela cria uma outra face, do modo
através do qual ela usa a inocência para acobertar sua malícia. A única reação
permitida à garota é implorar, desesperada, que os ‘poderes celestiais’
curem Hamlet, pois provavelmente o príncipe nunca havia sido tão rude ou cruel
como naquele discurso amargo.
Quando Hamlet deixa a cena, com uma última ordem de partida
para ‘a nunnery’, Ofélia se vê sozinha e revela seus pensamentos de
desilusão amorosa, louvando as qualidades de Hamlet que se perderam com a
loucura. É a beleza, a inteligência, a educação que se perdem “Like
sweet bells jangled out of tune and harsh”.
Ofélia se proclama ‘of
ladies most deject and wretched’, lamentando,
‘That unmatched form and
feature of blown youth
Blasted with ecstasy. O, woe
is me
To have seen what I have seen,
see what I see!’
A Ofélia de Nunes é poética e sofrida, chama a si mesma
de ‘mais desgraçada das mulheres’ e se lamenta,
“Essa
forma sem par, a flor da idade,
Fanada
pela insânia! Ó dor sem fim!
Ter já visto o que vi, e vê-lo assim!”
Enquanto Millôr a põe ‘aflita e infeliz’,
suspirando,
“A forma incomparável, a silhueta da juventude em
flor,
Queimada no delírio! Oh, desgraçada de mim,
Que vi o que vi, vendo o que vejo!”
E
Ramos a nomeia ‘entre as damas a mais triste e infortunada’, que declara
“Mirrada
pela insânia a ímpar forma e aspecto
Da
juventude em flor! Ai, mísera de mim,
Ter visto o que já vi, ver o que vejo agora...”
Obviamente existem ainda muitos detalhes que mereceriam um
estudo mais amplo, e mesmo questões aqui abordadas poderiam ser mais bem
exploradas, tanto no sentido da crítica literária e caracterização dos
personagens como no que envolve à crítica da tradução. Mas acredito que
mesmo essa pesquisa superficial sobre a caracterização de Ofélia como modelo
da donzela indefesa, ou na descrição de Samuel Jonhson: ‘jovem, bela, inocente e
piedosa’, demonstra que a tradução, no seu papel de re-escritura, guia o
leitor conforme a visão da sociedade para a qual ela foi designada, e para um
certo público alvo.
A tradução de Ramos é claramente voltada para um público
intelectual, pois o tradutor tenta criar uma linguagem imponente onde os
personagens deslizam, enquanto Millôr usa termos mais informais, já tendo
explicitado em uma entrevista que a peça deveria manter um caráter popular,
assim como na época em que foi escrita. Além dos problemas normais de uma
tradução, há ainda o peso da assinatura de ‘Shakespeare’, que tende a
elevar a obra além do âmbito literário, para dentro do sublime, dificultando
a modificação de visões já canonizadas da obra.
A partir dessa interpretação, unindo as partes que se
destacam das traduções aqui analisadas, e tendo como base uma tradução
particular, exponho a seguir uma nova versão, ao mesmo tempo formada de
recortes e buscando uma unidade na caracterização de Ofélia.
“Ofélia.
Meu bom senhor
Como está Vossa Alteza depois de tantos dias?
//Cumprimento formal.
//Ofélia
tenta manter o distanciamento.
Hamlet. Muitíssimo obrigado: bem, bem, bem. //Haveria certa ironia
na resposta de
//Hamlet,
devido ao tratamento formal de Ofélia quando estão sozinhos?
Ofélia.
Alteza, tenho comigo alguns presentes teus
Que há muito tempo desejava devolver.
Eu te peço que os aceite agora.
Hamlet. Não, não eu.
Eu nunca vos dei nada.
Ofélia.
Honrado príncipe, sabes muito bem que sim,
E com eles, palavras tão docemente perfumadas
Que os enriqueceram ainda mais. Mas, agora que esse perfume se perdeu,
Aceite-os de volta. Para alma
nobre
Os presentes mais ricos perdem seu valor, quando cruel se mostra o
doador.
Aqui estão, alteza. [entrega
os presentes]
Hamlet. Há, há! És casta? //Pura,
virgem
Ofélia.
Meu senhor?
Hamlet.
És bela?
Ofélia.
O quer queres dizer, alteza?
Hamlet.
Que acaso tu sejas casta e bela, tua castidade não deve permitir-se qualquer
contato com a tua beleza.
Ofélia.
Poderia a beleza, alteza, ter melhores relações do que com a castidade?
Hamlet.
Certamente. Pois o poder da beleza logo transformará o que fora castidade em
alcovitaria, ao invés da força da castidade tornar a beleza em virtude. Isso
outrora foi um paradoxo, mas os dias atuais provam que é verdade. Eu te amei um
dia.
Ofélia.
De fato, alteza, me fizeste acreditar que sim.
Hamlet.
Pois não devia. A virtude não pode se enxertar tão profundamente em nosso
velho tronco sem que nos sobre sequer algum perfume dele. Eu nunca te amei.
Ofélia.
Tanto maior foi meu engano. //decepção, desilusão
Hamlet.
Vai-te para um convento. Por que te tornarias uma criadora de pecadores? Eu
mesmo sou razoavelmente virtuoso, e ainda assim, poderia me acusar de coisas
tais, que melhor seria se minha mãe não me tivesse dado a luz.
Sou
extremamente orgulhoso, vingativo, ambicioso; com mais crimes ao meu dispor do
que pensamento para concebe-los, imaginação para dar-lhes forma ou tempo para
comete-los.
O que fariam sujeitos como eu, se arrastando entre o céu e a terra? Somos todos uns completos patifes. Não acredites em nós.
Vai-te
para um convento. – Onde está teu pai? //Mudança de tom. Talvez para um
//sussurro,
para que apenas ela ouvisse.
Ofélia.
Em casa, alteza.
Hamlet.
Que as portas se mantenham fechadas sobre ele, para que não banque o idiota em
nenhum lugar fora sua própria casa. Adeus.
Ofélia.
[ao lado] Oh, céus, ajudai-o!
Hamlet.
Se te casares, te dou essa praga como dote –
Mesmo sendo casta como o gelo e pura como a neve, não escaparás à calúnia.
Vai-te para um conventilho, um bordel, vai! Adeus. Ou, se realmente tiveres de
casar, casa com um tolo; pois os homens sábios sabem muito bem o que fazes
deles. Para um bordel, vai, e rápido. Adeus!
Ofélia.
[ao lado] Oh, poderes celestiais, curai-no!
Hamlet.
Tenho ouvido também de como te pintas, muito bem. Deus te deu uma face, e
fabricas outra. Tu andas requebrando e saltitando, falas como criança, dás
nomes às criaturas de Deus, fazendo tua sedução se passar por ignorância.
Vai-te - não agüento mais - foi isso que me deixou louco.
Eu digo que não haverá mais casamentos. Daqueles que estão casados,
todos, menos um, continuarão vivos; o resto deve permanecer como está. Para um
convento, vai! [sai de cena]
Ofélia.
Oh, tão nobre espírito assim
devastado!
A
língua do cortesão, a espada do soldado, o olho do estudioso
A
esperança e flor do belo Estado,
O
espelho da moda, o molde da forma,
Admirado
pelos admiráveis – tão, tão arrasado!
E
eu, entre as damas, a mais abatida e miserável,
Que
experimentou a doçura dos seus votos musicais,
E
agora vê aquele nobre e soberano raciocínio,
Como
sinos rotos a tocarem estridentes e fora de tom;
Aquela
incomparável beleza e os traços da juventude
Destruídos
pela loucura. Oh, pobre de mim
Ter
visto o que vi, e ver o que vejo!”
Assim, a partir do desdobramento e desconstrução dessas
traduções, me sirvo dessas obras e reconstruo, remonto, reescrevo. Não em
busca de ‘Hamlet’, mas de ‘Ofélia’, e aquilo que a personagem
simboliza. Ofélia, que enlouqueceu por amor, enquanto Hamlet apenas finge que
enlouqueceu. Ofélia, que se suicida, numa cena de beleza patética que define
sua personalidade, enquanto Hamlet apenas cogita sobre o assunto. Ofélia, que não
era uma donzela indefesa,
mas que faz o papel de uma para que Hamlet pudesse brilhar em Elsinore. O príncipe
poderia ter lhe dito “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja
existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência
a Mestres que não permitem nem perdoam”[6],
entretanto, ele preferiu guardar silêncio sobre seus motivos,
silenciando também Ofélia.
Bibliografia
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New Swan Shakespeare Advanced Series, Bernard Lott
Essex
- Inglaterra, 1983
_____.
Hamlet,
As alegres matronas de Windsor, tradução e adaptação de Millor Fernandes
L&OM,
1995
_____.
Hamlet,
tradução e adaptação de Péricles Eugênio da Silva Ramos
Editora
Abril, 1980
_____.
Hamlet in
Shakespeare, Teatro Completo : Tragédias
Tradução
e adaptação de Carlos Alberto Nunes, Ediouro
Foucault,
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História da Loucura na Idade Clássica
São
Paulo, 1978
Lefeverre,
André.
Translating
Literature: practice and theory in a comparative literature context.
Nova
Iorque - EUA, 1992
Müller, Heiner
Quatro
textos para teatro, Editora Hucitec – 1987
Venuti, Lawrence
The translator’s invisibility, 1995
Vollet, Neuza Lopes
Ribeiro.
“Ser
ou não ser pornográfico: eis a questão”
Tese
defendida no IEL, 1997
A. C. Bradley’s Shakespearean Tragedy (http://www.clicknotes.com/bradley/tr161.html)
Ophelia (http://boingyboingy.com/jump/ophelia.html)
Ophelia has a lot to answer for (http://www.owtoad.com/ophelia.html)
Ophelia Illustrated(http://www.emory.edu/ENGLISH/classes/Shakespeare_Illustrated/Ophelia.html)
Hamlet Navigator - Texto completo em inglês, comentários (http://www.webcom.com/pweller/Hamnavl/Hamidx.html)
A
figura da capa, de autoria de Ernest Hébert, foi publicada, em 1910, na revista
francesa Je Sais Tout, com a explicação de que essa Ofélia era
"truly that helplessly abandoned ideal creature,
whose hallucinating eyes see nothing more than what is within, and who, hair
loosened and streaming down, will in a few moments enter gently into the stream
which will carry her--a cut flower among other cut flowers--away to that world
beyond whereof her madness is already an expression".