Por trás das janelas apagadas tem mil e um universos, galáxias rodopiantes de trevas, buracos negros, estrelas de fumacenta escuridão. Através de vidros & cortinas, se pode distinguir vultos que serpenteiam, renovando as noções de pecado, tentação e conhecimento. Cada lâmpada apagada o Fruto Proibido. E sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.

A cidade cheia de torres. De marfim, de babel, de cristal. Ali na esquina mesmo a da Rapunzel; na rua de baixo, o Farol de Alexandria.

Através do neon vermelho dos hotéis baratos, a fachada desbotada dos prédios baratos. Quarto cozinha banheiro, com sorte armário embutido. O condomínio é uma mixaria, não tem porteiro aos domingos, sua sacada dá pra um estacionamento ou pra um terreno misteriosamente baldio, onde alguém acende uma fogueira em meio a sacos brilhantes de lixo.

Domingo à noite está todo mundo em casa, e ainda assim, quantas janelas escuras às nove!

As sirenes laranjadas giram desesperadamente à boca das garagens, bêbados derrubam garrafas no meio-fio. A noite no centro nunca é silenciosa, mas se você se concentrar em uma das sacadas sombrias, vai ter aquela sensação de mergulhar na água morna do mar, os barulhos todos se afogando - não na distância, mas em outra dimensão. Próxima, mas intocável.

Janelas. Um mosaico amarelado pra quem tem olhos de ver: uma acesa, uma apagada, uma apagada, uma acesa. Lá dentro, deusas sublimes depilam as pernas. Um par de sujeitos se espanta com o milagre do toque, "aqui pode?". Uma criança escreve palavrões no box embaçado. Um santo dorme no sofá, o controle remoto preso entre as almofadas. Uma taça de vinho pela metade observa a mesa que ficou posta tempo demais, ninguém veio.

Abençoando os cacos de caos da cidade, uma noite sem estrelas. Os astros todos palpáveis, ali, um dois três por quadra. Às vezes mais. Uma janela fica subitamente escura, olhos que se fecham e não se sabe quando vão reabrir. O mistério dos cegos.

Se você tivesse um binóculo, podia tentar distinguir se aquilo é uma pessoa ou um arbusto num grande vaso. Talvez não faça diferença, agora você até já criou um passado pra ele. Ela, aliás. No andar de cima, um pouco à esquerda, a conhecida luz azulada da TV cria uma atmosfera de neblina, onde três fadas bebem conhaque. Uma delas tem cabelo enrolado e o coração quebrado. No apartamento com o mesmo número, no prédio azul, logo ali, um cachorro arranha gemendo a porta da área de serviço.

Uma sombra ligeira dança num terraço, o vento canta nas antenas parabólicas. Na parte de cima do beliche, a menina durona escreve em silêncio, à meia luz, pra não acordar a sonhadora. Ela nem imagina que é a mais alienada das duas. No computador, digitando febrilmente, outro garoto tímido se perde ao ouvir pela primeira vez a música que nunca vai poder esquecer. Um casal faz papai-e-mamãe no chão da sala. Ela não sabe que ele mentiu a idade, ele sussura palavrões em inglês.

Que luz é aquela que brilha na janela? É um abajur, e uma mariposa ronda ébria a lâmpada. Alguém chora, ou murmura num tom lamurioso enquanto olha uma foto na parede.

Depois de beijar a testa de todos esses diabos sagrados, desses românticos, desses desgraçados, desses loucos, desses psicóticos sutis, você apaga sua própra luminária e deita sozinho na cama desfeita. Farelos de bolacha, travesseiro sem fronha, o fio do rádio-relógio enroscado na cabeceira.

Na torre que se eleva graciosa do outro lado da rua, coloco os óculos e saio pra sacada, só de pijama. Suspiro e imagino o que acontece por trás da sua janela apagada. Mas nem você saberia dizer.

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Kelly Lima, 11/2003

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