Era bem assim: a gente ficava lá sentado, no fim da tarde, num banco sujo, no mundo, em outro mundo, embaixo de árvores cheias de flores e céus cheios de nuvens. Aquele cheiro doce grudando na pele. Por lá tinha até umas flores com cheiro de chocolate. Juro. Tinha também umas outras de doçura embriagante, com uma textura quase artificial, brancas como confeitos, que eu cheguei até a comer. Mas isso foi depois. É outra coisa.
Eu estou falando dessa história agora. De como foi, de como poderia ter sido... eu já nem sei mais a verdade. Foi longe daqui, em outro tempo, outro lugar, outra vida. Ou talvez não, talvez tenha sido ali na esquina, ontem. Não posso dizer que vou contar o que eu lembro, porque não acho que invenção conta como lembrança. E não faço a mínima questão de distinguir realidade e ficção nesse caso. Prefiro deixar tudo se fundir, quente e úmido como aqueles dias todos que eu passei ao redor de fontes secas e barracas de feira meio desmontadas.
Ele tinha os olhos assim, de um castanho bem claro. O cabelo também, castanho claro. Acho que ele era todo claro desse jeito, desbotado, meio transparente. Talvez um dos motivos pelos quais eu demorei tanto tempo pra perceber a presença dele por ali. Sutil, tênue, diáfana, quase uma não-presença.
Um belo dia ele surgiu do limbo, sentado do meu lado num corredor vazio, arrumando os óculos e perguntando qualquer coisa sem importância. Aposto que fez até 'pop' quando ele se materializou.
Pois bem, um dia nós estávamos lá, no banco, e o vento (quando aparecia) vinha morno e melado lamber a minha pele poeirenta. Nós estávamos lá, dividindo uns fones de ouvido velhos e uma lata de refrigerante, olhando pra lugar nenhum. Eu ficava bagunçando o cabelo dele, batucando no chão com meus tênis furados, rindo baixinho. De quando em quando, ele me falava coisas que eu mal escutava e raramente entendia. Ele ficava respirando no meu cabelo e o silêncio pousava como um pássaro cansado daquele calor todo.
Não sei porque, eu me virei e perguntei "E por que eu?". Ele levantou uma sobranchelha, correu os dedos no meu rosto, ensaiou uma tosse. Sério, ele me respondeu "Por causa do seu carro."
Ele beijava o meu pescoço e o cavanhaque me raspava num rastro cheio de calafrios e esquecimento.
Tudo por causa do meu carro imaginário, claro. Eu não tenho, nunca tive e não pretendo ter um carro. Fobia particular.
O sujeito sempre foi ótimo em fugir das minhas perguntas, fáceis ou complicadas. Ótimo em imitar o T.S. Elliot recitando Wasteland - april is the crrrrrruelest month. Ótimo em fazer cara de bonzão e me espiar por cima dos óculos. Ótimo em cantar desafinando de propósito no meu ouvido. Ótimo em me arrastar entre corredores cheios de livros esquecidos, às vezes pra me beijar, às vezes pra me mostrar um poema qualquer, às vezes só pra me puxar pela mão, mesmo.
A gente costumava andar de mãos dadas fazendo caras intelectuais, brincando de Sartre e Beauvoir. Ele carregava sempre uma caneta presa entre os botões da camisa, parecia que a qualquer instante ele ia ter um surto e escrever um romance cheio de delírios com ela, rasgando paredes e troncos de árvore. Ele até disse que ia escrever um poema na minha pele, mas foi outra das tantas coisas que ficaram pra "um dia desses", o que todo mundo sabe que significa "nunca".
Naquele dia, depois que escureceu, nós ficamos vagando trôpegos por gramados esburacados. Onde? Nas nossas cidades de sonho, Londres, Paris, Veneza. Era como se eu estivesse bêbada, presa à ele por um cordão que saía da minha alma e se perdia na tinta daquela caneta dele.
Acho que peguei gripe aquela noite. Caía uma garoa fina e meu casaco estava esquecido na bolsa, enrolado em livros emprestados. Que me importava a febre, a tosse? Sob os postes com lâmpadas foscas, a mão dele traçou caminhos insólitos na minha carne.
Eu andava bêbada porque todo o álcool do universo se concentrava ali. No barulho seco de livros desabando das prateleiras. Nas frases que começavam nos lábios dele e se perdiam nos meus. Nas lembranças longínquas das minhas precursoras de saias curtas, pirulitos coloridos e línguas inquietas. Nos trechos de música que martelavam não só nos meus ouvidos, mas no meu corpo todo. E talvez até em outros lugares.
Foi bem assim. Como um filme que sai de cartaz justo na semana em que você ia ver, nosso amor feito de citações e saliva se desfez em poeira de estrela quando eu estiquei a mão pra tentar tocar aquele mistério, agarrar pelo rabo aquele peixe que não nadava em nenhum rio, em nenhum mar - só nos meus copos de suco.
Um dia estava tudo lá... e no outro, nada.
A música era só música, as flores só flores, as luzes trepidantes só lâmpadas com defeito.
Com a mesma boca que eu pedi naquela noite pra que ele ficasse comigo, que embalasse o meu sono, me abraçasse madrugada a dentro, eu pedi na manhã seguinte que ele calçasse logo os sapatos e fosse embora. Me enrolei no lençol, sentada na cama, e apontei a porta - minha mão tremia. "Vá".
Talvez ele tenha feito outro 'pop' quando se desmaterializou do lado de fora da minha casa. Eu disse "vá", e ele foi. Pálido e submisso ele cruzou a sala. Apontou pro meu rosto amassado de sono e disse, num tom baixo, que eu não tinha idéia de como estava bonita. Eu disse "vá", apertei mais o lençol, me irritei. Com a mão na maçaneta, sem se virar pra mim, ele disse que eu era difícil. Afoguei uma risada, rolei os olhos e deixei meu corpo cair na cama de novo. A fechadura estalou.
Só mais tarde eu vi o borrão de tinta na roupa de cama, a mancha azulada no meu ombro. Não era o prometido poema, disso eu tenho certeza. Mas exatamente o que era, ficou no mistério. Uma assinatura, um xingamento, um desenho. Eu não sei.
Esperei que ele voltasse, escancarasse a porta, gritasse comigo, que me desse uns tabefes, jogasse minha TV no chão. Fiquei na cama até o sol andar alto e queimar as minhas pálpebras. Ele nunca voltou. Nunca.
Na minha febre (sim, eu peguei gripe, no fim das contas), achei que ele era mais um delírio feito dos meus sonhos e das palavras dos outros. Um personagem de estopa e versos brancos que se apagou quando acendi a luz.
Foi no espelho que eu vi a realidade das marcas de lábios, manchas de tinta, cortes de dentes.
Foi assim.
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Kelly Lima, 11/2003
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