Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem
Kelly Lima, 14 de Novembro de 2002

Hamlet

As Mulheres de Elsinore


"Go to, I'll no more on't; it hath made me mad"
Ato III, cena I

Durante todo o desenvolvimento da peça 'Hamlet', pesa sobre os leitores a dúvida quanto à sinceridade feminina, mais especificamente, quanto às intenções e possíveis culpas sobre Gertrudes e Ofélia.

As imagens de ambas são tão intimamente entrelaçadas na mente de Hamlet, que, mesmo quando o Príncipe se dirige especificamente a uma delas, a sombra da outra mulher aparece nas entrelinhas (e por vezes, menos discretamente) de seu discurso. Ele as taxa como incestuosas, fúteis, inconstantes e não hesita em trata-las como prostitutas.

Sobre a mãe, a rainha Gertrudes, Hamlet vê os vícios de uma mulher que parecia amar tão apaixonadamente o rei, seu pai, mas que não titubeia em se lançar aos braços de Cláudio, quando o marido morre. O curto espaço de tempo entre o enterro do pai e novo casamento da mãe é um dos grandes tópicos usados por Hamlet na condenação das mulheres: "Frailty, thy name is woman! / A little month; or ere those shoes were old / With which she follow'd my poor father's body, (...)O God! a beast, that wants discourse of reason, / Would have mourn'd longer,-married with mine uncle", além de também jogar sobre ela o estigma do pecado da luxúria, que habita o leito incestuoso, o chiqueiro onde ela e Cláudio chafurdam.

Ofélia, outrora amada 'com um amor insuperável', sofre a acusação principal de ser prostituída pelo pai (que é acusado diretamente de proxeneta), devido à sua devoção e obediência. Instruída por Polônio a negar sua companhia a Hamlet, e mais tarde, a devolver seus presentes de amor, Ofélia age como uma espécie de marionete dos poderosos - mesmo que tenha a única intenção de manter ou de ter certeza do amor do Príncipe.

Ambas Ofélia e Gertrudes agem como as damas de corte que são: o que parece uma obediência cega ou inconstância não passa do jogo comum pela estabilidade. O amor ao poder e o poder do amor são intrínsecos um ao outro nos corredores escuros de Elsinore.

Os motivos que levam Ofélia a acatar as ordens de Polônio são maiores do que simples obediência ou amor filial: ela não quer ser mais uma das amantes de Hamlet, e segundo os argumentos (muito convincentes) do pai e do irmão, seguir com o comportamento apaixonado e descuidado que ela possuía até então acabaria com quaisquer planos para o futuro que ela pudesse ter, fossem eles de ser simplesmente a amada de Hamlet ou a futura Rainha da Dinamarca.

Os motivos de Gertrudes também vão além de uma possível falha de caráter ou de um desejo luxurioso por Cláudio: para manter-se no poder são necessárias ligações íntimas com o poder, assim como Hamlet aparece nos argumentos de Laertes como uma cabeça que deve ceder às necessidades do corpo que é o reino da Dinamarca, Gertrudes também deve agir rapidamente para manter o reino a salvo de Fortinbrás.

O espelhamento entre Ofélia e Gertrudes não é nem um pouco despropositado, assim como nenhum dos outros atos da loucura simulado de Hamlet o é. Além de quaisquer temáticas freudianas/edípicas num possível inconsciente de Hamlet, ambas representam as damas de corte: Fúteis? Inconstantes?

No mundo de Elsinore, habitado por fantasmas que clamam por vingança e sob tensão de uma guerra eminente, onde tudo o que se disputa é o poder, é mortalmente perigoso se entregar a caprichos amorosos. Ofélia enlouquece por amor e morre louca, talvez por ter ouvido os conselhos do pai e do irmão tarde demais.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. Tão podre que os modelos de virtude a serem seguidos tornam a Rainha incestuosa e uma dama apaixonada, uma prostituta.