A Demonologia Romântica

Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.

 

Kelly Lima

Junho de 2003

A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles...”.[1]

 

O relacionamento entre o homem e o diabo é abordado na literatura desde os mitos de criação até as obras contemporâneas, devido a sua grande utilidade como mediadora na relação entre o humano e o divino, um dos grandes temas transcendentais da arte.

Na bíblia, o demônio surge inicialmente com a forma que se tornará a mais popular entre os autores românticos: a de detentor de conhecimentos ocultos. Muito mais acessível do que Deus e testemunha do surgimento e funcionamento das engrenagens do universo, o diabo surge para tentar o homem, afirmando que, se provarem do fruto da árvore do conhecimento (uma das tantas exigências que seu personagem faz sempre que faz um oferecimento) “vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal[2].

Unindo essa primeira imagem à seguinte definição de demonologia, é facilmente identificável o motivo dessa predileção:

 

Demonologia: Estudo científico dos demônios complementando o estudo de Deus. Jean Bodin e outros acadêmicos do século XVI acreditavam que Satã tinha ‘um profundo conhecimento de todas as coisas’.”[3]

 

Existem variados motivos que levam os mais diversos personagens a desejarem manter contato com o diabo, como poderes sobrenaturais, cobiça material e desejos amorosos, mas sendo o herói romântico fortemente caracterizado pela curiosidade, e desejoso de saber as causas e efeitos que governam o universo, ele é facilmente atraído pela figura diabólica em sua faceta de possível instrutor nos mistérios do mundo.

E é como um irônico instrutor que Mefistófeles se apresenta em ‘Fausto’, que principiou como uma coletânea de contos populares e se tornou uma das histórias mais conhecidas da literatura, especialmente nas versões de Goethe e Marlowe. Nela, o personagem diabólico é invocado por Fausto, um sábio estudioso, com a intenção explícita de adquirir conhecimento.

Mefistófeles parece manter um relacionamento pacífico com Deus, e segue uma série de regras em seu contato com Fausto: ele precisa ser não apenas desejado, mas exige que seja convidado três vezes antes de entrar na sala do estudioso e que seja firmado um contrato assinado para comprovar a ligação entre eles.

Essa burocracia é necessária no sentido de esclarecer ao leitor que Fausto não é inocente. Diferentemente de Eva, ele não precisou ser seduzido, assumindo o papel dominador na relação: é ele quem invoca Mefistófeles, quem se impacienta com os obstáculos à proposta e quem responde, com um tom conformista, que “de qualquer forma sou escravo, que importa, se de outro ou de ti[4], quando alertado quanto aos termos envolvidos no contrato.

Numa outra leitura do tema, Álvares de Azevedo utiliza Macário, também um romântico estudioso, para travar contato com o diabo, porém, modificando drasticamente a relação de poder entre os personagens: Satã aparece não como instrutor, mas como mediador. Não há exposições educativas, apenas discussões nas quais Macário não busca o conhecimento alheio, por vezes discordando das idéias filosóficas expostas e se atendo ao seu conhecimento prévio.

Também não há nenhum contrato explícito entre ambos (apesar de a certa altura, o diabo afirmar que Macário havia sido ‘marcado’ por ele) e o surgimento da figura diabólica numa estalagem qualquer é tão espontâneo quanto havia sido no Jardim do Éden - não há invocações - e o estudante ironiza o encontro, afirmando “Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda!” e duvidando da identidade de Satã, que responde, no mesmo tom de ironia,  Decerto que querias ver-me nu e ébrio como Calibã, envolto no tradicional cheiro de enxofre!

O diabo é apenas mais um interlocutor, sem ser reconhecido como possuidor de qualquer sabedoria especial ou oculta, nem como superior ou diferente dos humanos, a não ser pelo ar blasé com o qual contempla a vida - ar compartilhado por Macário na sua tentativa de fugir ao romantismo.

Enquanto Fausto por vezes beira o melodramático, contrastando com o humor sarcástico de Mefistófeles, Macário e o Diabo se confundem, ambos cheios de ironia e tédio.

Penseroso aparece como o vértice otimista da tríade, que parece representar três faces distintas de um mesmo personagem: a união daquele que se nega a arroubos sentimentais, corrompido pelo mundo (Macário), do que age de modo esnobe e irônico, sem ser levado a sério (Diabo) e do inocente esperançoso (Penseroso) forma o herói romântico padrão, em seu misto de curiosidade e indiferença.

Se Fausto e Mefistófeles se opõe em hierarquias de poder e conhecimento para fazer uma metáfora da sociedade, Macário e seu Diabo se identificam para fazer uma metáfora do indivíduo, trocando incessantemente referências aos autores que formam a base crítica do autor romântico - Shakespeare, Victor Hugo e mesmo Goethe, entre outros – ao mesmo tempo em que poetizam as realidades da vida cotidiana.


 




Copyleft. Esse texto pode ser utilizado para fins não comerciais desde que a fonte seja citada e a autora esteja ciente. Para enviar críticas, comentários e dúvidas, escreva para k (arroba) samila.com.br.

Bibliografia

 

Azevedo, Álvares. Noite na Taverna e Macário. Livraria Martins Editora.

Goethe, Johann Wolfgang Von. Fausto. Tradução de Jeny Klabin Segall. Editora da USP, 1981.

 

Praz, Mário. A carne, o diabo e a morte na literatura romântica. Tradução de Philadelpho Menezes. Unicamp, 1996.

 

Watt, Ian. Mitos do individualismo moderno. Cambridge, 1996.

Pequeno e divertido dicionário de demônios, diabos, capetas, espíritos diabólicos e personagens afins. Editora Marco Zero, 1992.

 

The Faust Tradition – Links of Interest

(http://www.csuchico.edu/~goulding/faust/faustlinks.htm), 13/06/2003



[1] Macário

[2] Gênesis 3:5

[3] Pequeno e divertido dicionário de demônios, 1992

[4] Fausto. Quadro V, Cena I